Encontros e despedidas

por Martin Pawley / 24 09 2017


Sobre A Story for the Modlins + O Futebol, de Sergio Oksman

O cineasta Sergio Oksman estava à mais de vinte anos sem ter contacto com o seu pai, Simão, quando, numa viagem a São Paulo em 2013, decidiu ir à sua procura. Descobriu-o e, do reencontro, surgiu uma promessa: a de viverem juntos, no ano seguinte, o Campeonato do Mundo de Futebol que se celebraria no Brasil. O acordo é o ponto de partida de um filme que engana pela sua aparente transparência. Sergio documenta as semanas partilhadas com os jogos como desculpa para a convivência de pai e filho, jogos esses vistos nos ecrãs de televisão dos bares ou apenas intuídos, à distância, pelos berros dos espectadores nos estádios. Mas o futebol que verdadeiramente liga os dois é o do passado, o dos anos 70, o que viveram ainda em família. O presente é a amargura e a derrota, a pessoal e a coletiva. O projeto cinematográfico fora concebido inicialmente com regras e estruturas formais fixas para retratar a rotina – e mesmo o tédio – do dia-a-dia de trabalho e nas palavras-cruzadas que o pai preenche, com a paisagem de fundo de um país devorado pela loucura escapista do Mundial e das Olimpíadas. Mas a rigorosa planificação é alterada pela realidade da vida, que desvela paralelismos inesperados, e ainda mais pela realidade da morte. Foram precisos muitos meses de montagem para que Oksman e Carlos Muguiro repensarem e darem uma nova forma a um material delicado e emotivo, porque não quer ser melodramático, deste documentário que nunca quis ser ficção.

A Story for the Modlins, outro relato de um fracasso, anuncia no título a sua intenção, que não é a de explicar o misterioso retiro em Espanha de uma família americana, mas sim inventar para eles uma história. Uma dessas histórias ocultas que, porém, transcorrem diante dos nossos olhos, tão diante de nós que esta até começa no ecrã do cinema, com o patriarca, Elmer, como extra de um filme mítico, Rosemary's Baby. No final, o que resta de uma vida, por estranha que pareça, pode não ser mais que uma coleção de fotografias, vídeos e memórias resgatadas de um contentor de lixo na rua.


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