Rostos como paisagem (Sobre Calabria)

por João Araújo / 17 04 2017


Os road movies, particularmente na sua tradição norte-americana, são representativos de uma viagem, que é simultaneamente de descoberta visual e de ruminação interior das suas personagens. Estes filmes funcionam como uma metáfora sobre pessoas em crise, perdidas, à procura de um renascimento ou reinvenção, e essa vontade de mudança é frequentemente colocada à prova por percalços que surgem ao longo do caminho, para chegar a uma redenção final. Em Calabria, obra de Pierre-François Sauter, vencedor do DocLisboa (prémio competição internacional), a viagem começa logo por ser especial: o filme acompanha a entrega do cadáver de um emigrante a trabalhar na Suíça à sua terra natal, no sul de Itália. Nessa tarefa, escoltam o falecido dois cangalheiros, eles próprios emigrantes na Suíça: José, um português com o dom da palavra, e Jovan, um cigano que foi outrora cantor na Sérvia. Mais do que uma etapa de introspeção interior, o filme regista a forma como José e Jovan se dedicam a cumprir solenemente a sua missão como parte num ritual respeitoso pela morte. Na sua preocupação com a repetição e no ritmo pausado, o filme é, desta forma, a antítese de um convencional road movie.


A escolha mais relevante por parte de Pierre-François Sauter é a forma como este aproxima o filme de um registo documental. Durante longas sequências a câmara segue de perto o rosto dos dois atores dentro do carro, esquecendo as paisagens à volta da viagem, para focar-se simplesmente nas conversas entre os dois – nestes momentos o espectador transforma-se numa testemunha, como se fosse mais um passageiro no carro. Esta opção de Sauter coloca a ênfase nos diálogos entre as personagens como forma de definição das suas personalidades: as histórias sobre o passado, as preocupações com a família, e as interpretações sobre assuntos como o amor ou a morte, ajudam a compor o retrato de cada um, a encontrar os pontos em comum e as diferenças. O filme é pontuado por pequenos interregnos na viagem, momentos de interlúdio ou apenas de rotina profissional, que acentuam a inevitabilidade e normalidade do percurso.


Esta abordagem de Sauter na encenação evoca o espírito minimalista e de caráter reflexivo dos filmes dos realizadores iranianos Abbas Kiarostami e Jafar Panahi. Mais especificamente, em Dez (2002) e Táxi (2015), mais importante do que o destino final é a própria viagem, a solidão interrompida pelos ocupantes do carro e a dinâmica social que se revela fulcral. Tal como nesses filmes, em Calabria, os cenários da estrada são temporários, fugidios, enquanto a verdadeira âncora do filme é a interação entre as personagens e a descoberta de uma empatia com o próximo. Como um trajeto circular, Calabria é um elogio à passagem do tempo, à necessidade de seguir em frente, como prova da efemeridade de tudo, inclusive da vida.


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