Sobre o ciclo de filmes de Fischli/Weiss

por Andreia Magalhães / 05 04 2017


O Há Filmes na Baixa! apresenta, pela primeira vez em Portugal, a filmografia integral da conhecida dupla de artistas Fischli/Weiss inaugurando uma programação que se alarga ao domínio das artes visuais. Se nas últimas décadas o cinema invadiu as exposições de arte, em museus e galerias, é nossa vontade provocar um movimento inverso e trazer os filmes de artistas para as salas de cinema. 

Peter Fischli (1952) e David Weiss (1947-2012) conheceram-se em finais da década de 1970 no círculo punk de Zurique. Em 1979, iniciaram uma das mais longas parcerias artísticas da contemporaneidade que se desenvolveu ao longo de trinta anos. Conhecidos pelo sentido de humor e curiosidade, definiram-se como enciclopedistas do mundo visível e do quotidiano em diversas séries de escultura, fotografia e instalação. Nas suas obras, encontramos presente a narrativa como processo artístico e ideias aparentemente simples levadas a extremos formais, frequentemente concretizadas em projetos desenvolvidos ao longo de vários anos.

Na década de 1980, realizaram três filmes que revelam, entre uma diversidade de outros aspetos formais e artísticos, a influência do cinema na sua obra. The Point of Least Resistance (1981) e The Right Way (1983) são os primeiros filmes realizados pelos artistas. Une-os, à partida, o facto de ambos terem como protagonistas as personagens Rato e Urso, dois amigos que assumem a ambiciosa (e naturalmente inglória) missão de dar ordem ao mundo. A ironia é assumida desde o início como condição e processo — de Los Angeles aos Alpes Suíços os dois artistas, vestidos com fatos de animais, deambulam em conversas que combinam filosofia, senso comum e humor sobre os mais variados assuntos, desde formulações sobre o mundo da arte à natureza, ao mesmo tempo que tentam agir sobre o mundo e encontrar o seu lugar. O seguinte e último filme, The Way Things Go (1987), apresentado na Documenta de Kassel no ano da sua realização, tornou-se uma das obras mais conhecidas de Fischli/Weiss e uma das obras de arte contemporânea mais apropriadas de sempre.

Niilistas punks, os artistas importaram para as suas obras o princípio do it yourself – os filmes foram feitos com uma câmara Super 8 e escassos recursos, ainda que em muitas cenas a produção atinja efeitos cinematográficos surpreendentes. Estes chegam-nos hoje como uma lembrança do fulgor artístico que marca o arranque da carreira dos artistas, mantendo a atualidade que é inerente às grandes obras. 

(Os filmes de Flischli & Weiss foram exibidos a 5 de abril de 2017 no Há Filmes na Baixa!)


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